Arte Rupestre
A expressão artística mais antiga preservada pela humanidade — presente em todos os continentes, exceto na Antártida, e distribuída por todos os estados brasileiros.
Definição
A arte rupestre (do latim ars rupes, "arte sobre rocha") ou registro rupestre engloba um vasto conjunto de imagens criadas em superfícies rochosas, tanto em abrigos protegidos — como cavernas e grutas —, quanto ao ar livre, em paredões e lajedos.
Essas representações incluem figuras humanas, animais, plantas, objetos, pontos, linhas, bastões ou outras formas geométricas, muitas vezes combinadas em cenas que retratam o cotidiano e os rituais dos grupos que as criaram. Ela reflete a maneira como diferentes povos expressavam aspectos de sua cultura, representando a primeira forma de expressão de suas experiências, emoções e crenças.
A arte rupestre está presente em todos os continentes, exceto na Antártida, e no Brasil distribui-se por todos os estados da Federação. É a expressão artística mais antiga preservada, com algumas de suas manifestações datando de mais de quarenta mil anos.
Acredita-se que a arte rupestre tenha surgido no Paleolítico Superior, entre 40.000 e 11.000 anos AP (Antes do Presente), no seio de grupos humanos que dominavam o fogo, possuíam tecnologia diversificada de produção de instrumentos de pedra lascada e que, em termos físicos, eram semelhantes ao homem moderno.
A caverna de Chauvet, no sudeste da França, possui uma das datações de arte rupestre mais antigas do mundo, com cerca de 32 mil anos. As pinturas do local impressionaram pesquisadores pela qualidade excepcional de sua execução.
Histórico das Pesquisas no Brasil
Os sítios de arte rupestre no Brasil foram inicialmente descobertos por missionários e aventureiros que, nos primeiros séculos após o descobrimento, exploraram o território em busca de vestígios de "antigas civilizações". No século XIX, esses locais passaram a ser estudados, ainda que de forma secundária, por comissões científicas criadas para investigar as "riquezas do país" — botânica, zoologia, mineralogia e etnografia.
Com o avanço das descobertas, surgiram as primeiras interpretações que atribuíram a arte rupestre brasileira a povos mediterrâneos, estabelecendo analogias entre escritas do Velho Mundo e as "inscrições" ou "petroglifos" encontrados aqui. Esses estudos chegaram a sugerir a "incapacidade" dos povos indígenas nesse campo. Apenas na metade do século XX consolidou-se a ideia de que a autoria da arte rupestre era atribuída a grupos locais.
Os estudos sistemáticos ganharam força a partir da década de 1970, acompanhando o surgimento da arqueologia profissional no país. Influenciados pela escola francesa, os pesquisadores passaram a abordar a arte rupestre como um importante documento arqueológico, realizando levantamentos detalhados por meio de fotografias ou decalques e análises morfológicas do conjunto gráfico encontrado nas rochas.
Essa abordagem, desde o início, priorizou o estudo das pinturas, sem dar ênfase à integração das imagens com a paisagem ao redor — marginalizando o contexto ambiental das representações, prática que foi comum na Europa até o século XIX, quando passou a ser revista.
Vertentes Interpretativas
Com a descoberta de grutas pintadas na Europa entre o final do século XIX e o início do século XX, surgiram os primeiros levantamentos e classificações das figuras rupestres. Esses estudos se dividiram em duas grandes abordagens:
Via a arte rupestre como expressão autônoma e estética, separada de funções práticas. As figuras mais bem elaboradas eram associadas a "grupos civilizados", enquanto as demais eram vistas como "obras grosseiras" de uma civilização igualmente rude.
Atribuía à arte rupestre um caráter sagrado, representando as relações entre o homem e o sobrenatural. Essa interpretação consolidou a ideia de que a arte rupestre europeia funcionava como "santuários por excelência".
No Brasil, passou-se a interpretar a arte rupestre como um meio de comunicação de motivações variadas. As manifestações gráficas corresponderiam a sistemas de apresentação gráfica que seriam a expressão dos sistemas de comunicação das sociedades.
Dentre outras vias interpretativas, destaca-se ainda a que estabelece a relação da arte rupestre com um sistema xamânico de crenças. Os estudiosos partem da premissa da existência de certas formas de xamanismo em todos os povos de diferentes partes do mundo, cuja origem remonta ao Paleolítico.
A ideia está fundamentada no próprio sistema nervoso humano, capaz de gerar estados de consciência alterada. Para esses autores, as grutas paleolíticas eram lugares especiais através dos quais o homem entrava em contato com o mundo dos espíritos — premissa subsidiada por relatos etnográficos de grupos que praticavam o xamanismo.
Terminologia e Classificação
A pesquisa em arte rupestre caracteriza-se pelo uso de diferentes termos para descrever objetos essencialmente idênticos. Embora os conceitos sejam os mesmos, os autores variam na nomenclatura. Alguns utilizam "unidade gráfica", "gravura", "conjunto gráfico" e "dispositivo parietal"; outros preferem "registro gráfico", "mancha gráfica" e "painel".
A menor parte visível de uma representação, com disposição espacial própria. Pode ser, por exemplo, um ponto ou uma linha individualmente visíveis nas superfícies rochosas.
Formada quando se juntam uma ou mais unidades gráficas do mesmo tipo ou combinadas. Um conjunto de pontos ou linhas organizados que formam uma figura reconhecível.
Também chamado de "mancha gráfica" ou "dispositivo parietal". Formado por um agrupamento de unidades gráficas que criam uma cena ou representação maior.
Termos alternativos: petroglifos para gravuras rupestres e pictoglifos para pinturas rupestres.
Quanto às formas de representação, as gravuras classificam-se em duas categorias principais:
Formas facilmente reconhecíveis: figuras antropomorfas (humanas), zoomorfas (animais), fitomorfas (plantas), além de mãos, pés e outras formas que retratam a realidade de maneira direta. Muitas vezes agrupadas em cenas completas.
Círculos, pontos, linhas, traços e figuras geométricas mais abstratas. Dividem-se em figuras elementares e figuras complexas, dependendo da organização e detalhamento. Há ainda a esquematização: elementos humanos ou animais reduzidos a seus traços essenciais.
O pouco interesse em se estudar grafismos não-figurativos se dá, não só pelo fato de serem menos "interessantes", mas principalmente devido ao fato de serem em sua maioria geométricos — impossíveis de explicar ou definir.
Técnicas de Execução
Quanto às técnicas utilizadas para realizar a arte rupestre, há a gravura, a pintura e o crayon. A escultura na rocha é outra técnica utilizada, porém mais rara — exemplos são encontrados em alguns sítios do período paleolítico na Europa.
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01Gravura (Petroglifos)
Envolve a retirada de material de uma superfície rochosa utilizando ferramentas específicas. Na região amazônica, foram identificadas diversas formas: raspagem, gravura fina, gravura profunda e picoteado. Menos comuns são as gravuras pintadas, onde a parte removida é preenchida com pigmento, criando contraste visual. Exemplos: Pedra do Ingá (PB) e Pedra do Castelo, em Castelo do Piauí.
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02Pintura (Pictoglifos)
Aplicação de pigmentos sobre a rocha. Trata-se da técnica mais estudada pelos pesquisadores brasileiros, com influência da escola francesa de análise morfológica. Os pigmentos podiam ser de origens minerais, vegetais ou animais.
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03Crayon
Técnica em que o pigmento é aplicado diretamente sobre a rocha por meio de um bastão ou material em forma de crayon, sem o uso de líquido diluente.
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04Escultura na Rocha
Técnica mais rara, com exemplos conhecidos em alguns sítios do período paleolítico na Europa. Consiste na modelagem tridimensional diretamente na superfície rochosa.
A técnica de gravuras pintadas — onde a parte removida da rocha é preenchida com pigmento — pode ser encontrada em sítios como São Miguel do Tapuio, município vizinho a Buriti dos Montes. Outro exemplo destacado é a Pedra do Ingá, em Ingá, Paraíba.
Tradições Rupestres
Ao vincular os dados obtidos em escavações com os resultados dos estudos sobre a arte rupestre, foi possível estabelecer cronologias. O curso das análises levou à identificação de similaridades e diferenças observáveis nas técnicas e temáticas, segregando conjuntos de imagens semelhantes com ampla dispersão territorial — denominados "Tradição".
Como parte das sistematizações, algumas tradições também foram subdivididas em subtradições, fases, fácies e estilos.
Confira a seção deste blog "Classificação dos Registros Rupestres" para aprofundar o tema das tradições, subtradições e estilos identificados no Brasil.
Proteção Federal no Brasil
Alguns conjuntos e sítios isolados de arte rupestre são especialmente protegidos em nível federal por meio do tombamento. Os sítios de arte rupestre integram o patrimônio cultural do país, nos termos do artigo 216 da Constituição de 1988. Para acesso ao mapeamento nacional, consulte o Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA) do IPHAN.
Localizadas no município de Ingá, estado da Paraíba. Tombadas por suas expressivas gravuras rupestres, constituem um dos mais importantes conjuntos de petroglifos do Brasil.
Localizado no sudeste do estado do Piauí. Contempla um conjunto de arte rupestre gravada e pintada, abrigando alguns dos mais antigos registros da presença humana nas Américas.
Localizada em Florianópolis, Santa Catarina. Tombada por seu valor arqueológico e paisagístico, comporta gravuras rupestres e oficinas líticas.
Localizadas no estado do Mato Grosso, onde se identificam também sítios de arte rupestre. A proteção foi requerida pelas próprias comunidades indígenas locais.
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